Mostra Intempestivas 1 – Você nunca viu terra firme
Em Terra
Em Terra apresenta uma narrativa onírica na qual uma mulher, interpretada por Deren, é levada pelas ondas até uma praia e embarca em uma estranha jornada, encontrando outras pessoas e outras versões de si mesma.
Florestas, Contos, Cidades, Florestas
Obra concebida para ser apreciada no som surround de salas de cinema escurecidas, como uma série vertiginosa de imagens sonoras semelhantes a manchas de tinta. Cada vez que se ouve Florestas, Contos, Cidades, Florestas emerge um multiverso de narrativas na penumbra da acuidade sensorial. Giorgi convida os ouvintes a reservarem um tempo para apreciar o álbum em um espaço escuro e confortável, livre de estímulos externos.
Mostra Intempestivas 2 – Debaixo do barro do chão
Sonorização ao vivo por Ajítẹnà Marco Scarassatti e João Viana
UNDR
O olhar da câmera volta obsessivamente aos mesmos lugares, uma perspectiva vertical que impõe controle, a possessão de sítios arqueológicos, pedras que jazem há milhares de anos no deserto. Os lugares que ela observa, no entanto, não estão desertos: avistamos os camponeses trabalhando a terra, eles próprios transformados em paisagem. Algo perturba a quietude do lugar: explosões preparam o terreno para novas cidades com novos nomes, novas florestas. Essa paisagem é transformada em uma cenografia de apropriação.
Revezes…
Longa de ficção realizado durante o Ciclo do Recife, que se aproxima do centenário do seu lançamento. A história acompanha Jacinto, um fazendeiro violento e soberbo no agreste pernambucano, cujo filho tenta conquistar Célia, a filha de um dos trabalhadores do lugar. A jovem, no entanto, é apaixonada pelo vaqueiro Carlos, o que conduz os acontecimentos a um grande confronto.
Mostra Intempestivas 3: Rios e montanhas (1)
Nota curatorial por Francisco Algarín Navarro:
As árvores estão inquietas.
As montanhas estão inquietas.
O rio está inquieto sob a sua pele.
Primordiais, profundas, espelhadas, torrenciais, solitárias. Nunca idêntica a si mesma, a água dos rios, das cascatas ou dos glaciares revela, nesta sessão, formas visíveis do tempo. Em La Source de la Loire, uma placa anuncia: “Aqui começa o meu percurso até o oceano”. Depois de atravessar as águas coloridas e turbulentas de Waterfall e o degelo dos glaciares árticos de Creation, a sessão encerra-se circularmente com By the Lake, onde um fio de água emana, sensual, enigmática e milagrosamente, das próprias entranhas da pedra.
A fonte do Loire
Visual e temporalmente subordinada ao fluxo do manancial, Rose Lowder inicia La Source de la Loire filmando um pequeno fio de água que brota da terra, acompanhando diferentes troços do curso inicial do Loire no monte Gerbier de Jonc. Sucedem-se planos de três segundos desde a floresta até à estrada, planos de dois segundos de um percurso semelhante e um passeio visual em planos de um oitavo de segundo, que culmina com um concerto de pássaros registrado junto à nascente.
Cachoeira
Inspirados pelas recorrentes cascatas petrificadas — resultantes das longas exposições— de algumas fotografias do século XIX, Arthur e Corinne Cantrill filmaram nas cataratas de Mackenzie (nos Montes Grampianos, na Austrália) a sua décima quarta exploração da separação cromática, na qual, através da tripla exposição, o tempo se manifesta como cor. Ao reduzir a velocidade do obturador, modifica-se a perceção temporal da água em cada composição: por vezes, esta unifica-se em fluxos brancos e sólidos; noutras, a sua direção parece incerta — a longa exposição, segundo os Cantrill, corresponde ao tempo que uma gota de água demora a atravessar o enquadramento de cima a baixo —; ou intensifica-se a densidade visual da queda de água. Os cineastas abrandam progressivamente a velocidade de filmagem, interrompem a câmara ou, por vezes, recorrem a exposições que variam entre meio segundo e um segundo por fotograma. As variações de densidade entre as separações cromáticas dependem da duração das exposições. Como explicam os Cantrill, quando uma nuvem passa por uma das separações, banha a paisagem com cores cambiantes, como nas antigas tintagens do cinema primitivo.
Criação
Nos seus numerosos filmes dedicados à água, Stan Brakhage fazia dela frequentemente um reflexo da consciência humana (um “pensamento visual em movimento”). Creation evoca um retrato, sob a forma de uma sinfonia visual, da Terra numa fase primordial e selvagem. O cineasta investigou as imagens dramáticas do Génesis através da pintura de Frederick Edwin Church. Filmado no Alasca, o degelo dos icebergs nascidos dos glaciares estabelece uma rima com alguns dos procedimentos fílmicos utilizados em Creation, como as variações de luz ao modificar a abertura da íris, as mudanças da distância focal — em analogia com o gelo cortante — ou a inversão das imagens. O dinamismo da paisagem ártica parece depender não só da mobilidade da câmara ou do amplo espectro cromático, mas também da capacidade da água para se renovar constantemente, oscilando entre o estado líquido e o sólido, enquanto reflete as formas terrestres e marinhas.
Às margens do lago
Chick Strand combinava o seu interesse pela antropologia com a sua paixão por um cinema sensorial, profundamente apegado aos corpos. Durante as suas viagens ao México, filmava imagens que só montava um ano mais tarde, construindo, como em By the Lake, filmes-colagem, imagens justapostas entre si ou associadas a sons — neste caso, a operação a um cavalo ou, muito particularmente, as gravações realizadas no Lago Taho. Do entrelaçamento destes elementos díspares emergem novos sentidos, não necessariamente previstos no momento da filmagem — ao que tudo indica, estas imagens foram filmadas para outros filmes que nunca chegaram a ser concluídos —. Em By the Lake, o suave murmúrio de ondas invisíveis acompanha o deambular de várias mulheres, até que, por fim, um fio de água desce por floridos degraus de pedra, líquido amniótico que parece brotar das profundezas da Terra.
Mostra Intempestivas 4: Rios e montanhas (2)
Nota curatorial por Francisco Algarín Navarro:
As árvores estão inquietas.
As montanhas estão inquietas.
O rio está inquieto sob a sua pele.
Composta como um palimpsesto, Archipelago of Earthen Bones — To Bunya desdobra, através de exposições múltiplas, uma constelação de cordilheiras e florestas tropicais no leste da Austrália. Por sua vez, At Uluru propõe uma investigação geológica em torno de uma única formação rochosa situada no centro da Austrália. O escrutínio do seu perímetro, da sua escala, das suas texturas e da sua pele camaleónica apenas confirma o caráter insondável do misterioso monólito. Separados por quase cinquenta anos, os dois filmes meditam sobre a fragilidade do ecossistema, exploram as incessantes variações cromáticas das rochas e evocam as conceções aborígenes da paisagem como repositório da vida do continente.
Arquipélago dos Ossos de Barro — Para Bunya
Estendendo-se ao longo do Pacífico, do Chile à Austrália, o mais recente ciclo de filmes de Malena Szlam explora os acidentes geológicos e a atividade vulcânica. As reconfigurações topográficas e as cartografias dos ciclos dos vulcões, realizadas em colaboração com diferentes geocientistas, permitiram à cineasta, como ela própria explica, traçar mapas imaginários a partir das placas tectónicas da Terra. Em Archipelago of Earthen Bones — To Bunya, Szlam condensa escalas espaciais e temporais impossíveis de apreender sem a câmara, entrelaçando as histórias estratificadas que unem as Montanhas Bunya, o Monte Beerwah e a floresta tropical de Gondwana. A recente erupção do vulcão submarino Hunga Tonga–Hunga Haʻapai —que lançou para a atmosfera elevadas colunas de vapor de água e cinza— gerou intensos clarões crepusculares, registados em exposições múltiplas realizadas intuitivamente na câmara. Na paleta cromática, animada pela dispersão da luz solar, convivem os tons dourados e azuis com os vermelhos intensos do entardecer. As linhas do horizonte vibram harmoniosamente à medida que as silhuetas das diferentes montanhas interagem com a vegetação abundante e as imagens do céu. A banda sonora, composta pelo artista australiano Lawrence English, inclui vibrações subterrâneas e sons biofônicos de aves e insetos.
Em Uluru
Na sua primeira viagem a Uluru — o monólito de arenito que se ergue no meio das planícies desérticas do centro da Austrália —, Arthur e Corinne Cantrill realizaram o terceiro filme do ciclo Touching the Earth, no qual exploram as relações entre a geologia, a botânica, o mundo animal e o presente. Na sua aproximação à formação rochosa — que se eleva 348 metros acima do terreno circundante e possui um perímetro de quase 10 quilómetros —, os cineastas circundam, escalam ou sobrevoam Uluru sob diferentes condições de luz e ao longo de vários dias. A superfície do monólito muda de cor consoante a inclinação dos raios solares ao longo do dia ou das diferentes estações do ano, bem como em função do movimento da Terra ou das condições climatéricas. Depois de reconhecer a silhueta, a escala e as diferentes faces da massa rochosa, o filme avança progressivamente, perscrutando a superfície — a pele escamosa e ondulada que evoca as crateras lunares, a escuridão contrastada das grutas, a flora e a fauna que habitam as suas proximidades. A força gráfica das pinturas rupestres ressoa nos gestos de uma câmara que acaba por transform Uluru em volumes e cores. Para além dos significados mitológicos ou da retórica política — embora atravessado pelas tradições do povo aborígene aṉangu, guardião ancestral da região —, At Uluru transforma-se num labirinto espaço-temporal em que prevalece o desenvolvimento dos motivos cinematográficos — a par das incessantes panorâmicas, os Cantrill recorrem ocasionalmente a time-lapses e a hipnóticos fundidos a branco e solarizações. Às observações sobre o monólito enunciadas por Corinne Cantrill no início do filme seguem-se longos blocos de silêncio. Estes parecem corresponder à vida própria e impenetrável de Uluru, independente de qualquer compreensão humana.
