Sinopses


Mostra Horizontes

Terça-feira, 5 de agosto, 19h30

Performance inédita de Ricardo Aleixo com colaboração de Ajitenà Marco Scarassatti em diálogo com a obra de Zora Neale Hurston

O artista intermídia Ricardo Aleixo celebra o legado audiovisual e literário de Zora Neale Hurston (1891-1960), numa performance inédita em que funde poemas e breves peças sonoras de sua autoria a fragmentos de textos e imagens em movimento recolhidos em obras da cineasta, antropóloga, escritora e ensaísta afroestadunidense. Aleixo contará com a colaboração do músico, compositor e luthier Ajitenà Marco Scarassatti, seu parceiro de longa data em projetos criativos marcados pela relativização das supostas fronteiras entre os campos artísticos, por meio da improvisação livre e do contínuo diálogo com as vertentes experimentais da arte afrodiaspórica.


Quinta-feira, 7 de agosto,  19h45

Em improvisação ao vivo, os músicos Francisco César (sax, bandoneón e eletrônicos),  Nelson Pimenta (sakurachi, percussão e eletrônicos) e Rémy Reber (guitarra, violão e eletrônicos) elaboram um diálogo musical com um clássico do cinema de vanguarda japonês. Em Uma Página de Loucura (狂った一頁, Teinosuke Kinugasa, Japão, 1926, 71’), um marinheiro consegue um emprego como faxineiro em um manicômio para tentar libertar a esposa internada. Mas essa história é só uma desculpa para uma viagem de terror experimental fascinante, produzida pela Shinkankakuha (Escola de Novas Percepções), e que conta com algumas das imagens mais aterrorizantes e espetaculares da história do cinema. Considerada perdida por mais de 45 anos, até que foi encontrada em um barril de arroz pelo diretor Teinosuke Kinugasa, a obra em sua versão atual possui um terço a menos da metragem original – o que só aumenta a sensação de fragmentação e liberdade. Recheado de jogos de luz e sombra, ângulos inusitados, movimentos de câmera vertiginosos e distorções abstratas, o filme se move no compasso da loucura. Um prato cheio para um trio de músicos experimentais.


Mostra Competitiva BH

Quarta-feira, 6 de agosto, 16h30

Nesse filme-ensaio, as fotos incolores são organizadas de forma a recriar as vibrações de um espaço, que, a partir da voz que guia o olhar, ganha camadas pessoais, sensoriais e simbólicas. Uma viagem por dentro de um rinoceronte atravessado por memórias.


Um experimento com imagens geradas e movimentadas artificialmente. Cada um dos 3 segmentos antológicos do curta busca incorporar a transitoriedade e onirismo, relativos à tecnologia, por meio de conceitos visuais particulares e sons eletroacústicos ressonantes. Um convite a pensar nas possibilidades estéticas da IA nas artes fílmicas.


O corpo e a cidade se cruzam em uma deriva noturna. Ruídos delirantes atravessam a madrugada, enquanto uma figura anônima tensiona o espaço imagético. Uma jornada erótica e atmosférica em constante fricção desejante.


Em dispersão temporal imagética, deslocamentos por diferentes áreas de Belo Horizonte compõem um tabuleiro silencioso. Entre pausas e avanços, insinua-se um truque: um gesto que parece mecânico, mas obedece a outro comando — o cálculo verdadeiro se oculta atrás da imagem, à espera do desvelamento da simulação.


Entre fuga e contorção, o corpo risca a superfície até dissolver suas bordas. No preto e branco, pulsa uma dança de convite e vertigem. Máscara, feixe, batida: imagens deslizam entre a pulsação e o abismo, onde o gesto é permanência, forma em delírio.


Quinta-feira, 7 de agosto, 16h30

Nesse filme-ensaio, imagens de arquivo desviam o olhar, riscam a margem. Entre ficções e fantasmas do desejo, vagam os contornos de um cinema lésbico-feminista possível. Na encruzilhada, o gesto hesita, mas insiste — de canto, na dobra do tempo, onde o ímpeto ainda arde.


Na dispersão dos estilos e texturas, a animação se move sem ancoragem. Entre cortes, texturas e deslizamentos, insinua-se um transe: composição que se refaz no plano, sem eixo narrativo, guiada por acúmulos visuais, estados de suspensão e proximidades em sonho.


Filmagens caseiras, arquivos pessoais e fragmentos de filmes compõem este curta que busca transpor em imagens os dramas e paixões de uma jovem cineasta negra. Um universo pessoal emerge, a sensação de existir perante e a partir do cinema.


Na borda da imagem, ouve-se o que quase escapa. Fragmentos mínimos — uma retina, um caule, um sopro — compõem uma escuta residual: um vislumbre dos vestígios perceptivos, dos resquícios de fluxo. Pela extrapolação do ínfimo, insinua-se a presença como ruído e o ruído como forma.


Uma dança constituída pela descontinuidade de seus movimentos e sons, que se encontram em ativo atrito. Em Ocupando Es(Passos), o fluxo das ruas do centro de Belo Horizonte se torna parte da cena, compondo uma coreografia política da cidade.


Um plano fixo apresenta uma fotografia descentrada, sobre ela incide a polifônica voz off, que rivaliza com outros sons. Estruturalmente baseado no filme Hapax Legomena: Nostalgia (1971), de Hollis Frampton, Homenagem investiga de maneira performática os (des)caminhos da memória.

*Sinopses escritas por Arthur Emanuel e Nayara Aguiar


Mostra Competitiva Internacional

Quarta-feira, 6 de agosto, 18h15

Constelações de estrelas e vagalumes. Erupções vulcânicas e de gêisers. A combustão do cinema e do amor. Entre a “astronomia apaixonada” (Proust) e a paixão astronômica. “Mas como é possível o amor ?” (Hölderlin, “Mnemosyne”, 1803). “O tempo do amor é o tempo perdido. Os signos do amor implicam um tempo que se perde” (Deleuze).


Faz milhares de anos, o cinema germinou na encosta de uma montanha no Peru. O sinal do seu movimento se sustenta na rocha vulcânica que outrora foi a sua pele, que muda e se transforma sem parar.


Segunda parte de um díptico de curtas-metragens experimentais de poesia documental. Foca na centralidade primordial da presença de mulheres, com ênfase em mulheres negras.


Uma colagem fílmica que tenta delinear um território concreto, imaginado e desejado, situado “para baixo e para a esquerda” da cartografia mundial hegemônica. Fotografias tiradas em Cerro Blanco – Guayaquil, um território cuja proteção e destruição são ambas administradas pela empresa suíça de materiais de construção HOLCIM, se encontram com as vozes de rádios rebeldes da América Latina e do Caribe que clamam pela libertação da terra.


Aos quase 30 anos, Anjo está preso a um vínculo visceral com sua mãe. Uma Pessoa de Balaclava surge como um reflexo projetivo de sua dor e desejo. Rituais de sacrifício transformam a carne em oferenda, num limiar entre redenção e ferida aberta. Com um elenco inteiramente trans, Feiura Comovente é um filme-poesia sobre fé, cicatrizes e a beleza do que não pode ser salvo.


Quinta-feira, 7 de agosto, 18h15

Um retorno ao fatídico ano de 1948 em Israel, reenquadrado por uma única fotografia que é tirada de um rosto de cada vez. Quatro figuras numa encosta testemunham a sociedade revolucionária, o novo Estado, a nova lei. Como muitos momentos de catástrofe, está repleto de encantos de invisibilidade e de relações fantasmagóricas. Como falar do que não pode ser colocao em palavras, como mostrar o que não pode ser visto?


Santiago no calor cintilante do verão. As imagens de alta resolução são submetidas a um zoom digital que transforma os espaços em superfícies e as casas em texturas. Em meio a isso, emergem os pequenos gestos do cotidiano urbano de duas mulheres à procura de um lugar para o seu amor.


Em Apneia, um grupo de pescadores dorme às margens do rio Potengi, onde praticam mergulho livre. Os seus movimentos de recuperação corporal fundem-se com as águas movediças, cujo aspecto se transforma com a presença ou ausência de oxigênio, no ciclo contínuo das marés, da cidade e da própria vida. A resiliência destes corpos de água desdobra-se através de uma série de micro-acções, flutuações meditativas em que a dimensão produtiva do trabalho é suspensa, levando-o à comunhão do pescador com o próprio ritmo do rio.


Um Outro Outro medita sobre as rupturas e intimidades simultâneas entre a identidade negra e o império dos EUA. Em torno dos interrogatórios de duas figuras negras por numerosos funcionários brancos do Estado, o filme debate-se com o escrutínio e o sequestro do discurso da figura negra, ao mesmo tempo que aborda a sua cumplicidade na violência e corrupção das instituições que servem.


Uma colagem construída a partir do frame que propõe unir diferentes lugares a partir das distorções do espaço, encerrando diferentes paisagens no mesmo frame. Criando paisagens não-existentes mas potencialmente reais.


Línguas, bichos, poros, pés, grãos, peles. Um passeio por formas e texturas, embalado pela brisa suave de um entardecer à beira mar. O prazer selvagem emerge da calmaria do oceano.


Sexta-feira, 8 de agosto, 18h15

Os obstáculos temporais e físicos que parecem manifestar-se nas diferentes escalas entre o homem e a planta são desconstruídos através de meios cinematográficos. A procura de assinaturas vegetais do ser-no-mundo transforma-se numa experiência espacial inesperada de visionamento; uma explosão transcalar, a passagem através do grão da película.


Num ritual caseiro, a minha avó incorpora o caboclo Indaiá, o seu guia espiritual, provindo das tradições afro-brasileiras. O relato dela sobre o primeiro encontro, nos anos 60, é um legado estimado, passado de geração em geração. Essa história, semelhante a uma invocação, torna-se o núcleo narrativo e o portal para outras visões, especialmente entre as mulheres da minha família. Reconhecendo que há muito para ver para além do espectro visível,  Aparição reflete sobre a visão como um ato coletivo.


Às vezes precisamos chegar ao outro lado para entender o que estivemos atravessando.


Gustavo está cansado e resolve desabafar entre as materialidades da vida…


Filme criado a partir de materiais de arquivo do Estúdio de Cinema Educativo de Lódz, conta a história de uma família matriarcal através dos olhos de uma criança que se debate com a reprodução de sistemas ideológicos e de representação. Originalmente criadas como ferramentas didáticas e propagandísticas na Polónia comunista, as filmagens são reaproveitadas como um locus de memórias auto-ficcionais, com o seu registo científico deslocado para um tratamento das próprias imagens como espécimes.


Prazer visual e cinema narrativo (?)


Mostra Intempestivas

Sessão programada por Luís Fernando Moura

Quarta-feira, 6 de agosto, 20h

Nota curatorial:
Sugeria Fernand Deligny que, como os bichos, os filmes talvez pertençam ao reino animal. Já a escrita, respondemos, só a nós, humanos, foi dada, sentença determinada, ainda que tudo seja mistério — o de um filme, o de um bicho —;  ainda que apesar de amantes sejamos tão pouco para escrever para o nato movimento de um corpo-passar. Fazemos: ora a trova de um excelso vagabundo, ora a farsa de um comunismo entre sonhadores e cães, ora a prece combalida de guardiões abandonados. Mafalda, nasceu 2022, morreu 2025. Esta coleção de filmes rapazes lhe presta tributo ao trejeito de fábulas caninas. Nosso amor Mafalda, coisa-mais-linda.

Elle est retrouvée. Quoi ? – Leternité. Cest la mer allée Avec le soleil.


O Vagabundo e seu companheiro canino lutam para sobreviver no centro da cidade.


Toda história de amor é uma história de fantasma.


Sessão programada por Victor Guimarães

Sexta-feira, 8 de agosto, 16h30

Nota curatorial:
A intuição de Pasolini já o sabia: se há um futebol sistêmico, um futebol de prosa, do outro lado (do mundo) há um futebol de poesia, cuja pedra-de-toque é o drible. Qualquer semelhança com o cinema não será mera coincidência. Seria possível escrever uma nota de pé de página na história do cinema experimental sobre os filmes que tomaram a finta como motor de suas maquinações. Em oposição ao estrutural, à métrica, à mecânica racional, filmes que apostam no engano, no giro em falso, na ginga para escapar dos mais variados obstáculos. Filmes que impõem à quadratura da linguagem um empuxo circular. Filmes-dribles, filmes que são uma “promessa de movimento que não se dá se dando e se dá não se dando”, como escreveu o boleiro José Miguel Wisnik. Aqui, três tempos. Três geografias. Três pedaladas em frente ao espectador. Uma pequena história do faz que vai.

É dia de jogo numa esquina qualquer. As coisas todas se movem sob as ordens de uma voz que tudo sabe e tudo vê. John Smith brinca de Deus (ou de Garrincha). Mas não vem de garfo que hoje é dia de sopa. Se os ingleses inventaram o futebol, mas foram os latino-americanos que inventaram o drible, ao menos no cinema, também tem inglês que sabe gingar.


No campo castigado dos fragmentos que restaram do cinema silencioso colombiano, Jerónimo Atehortúa gambeteia, esquiva, salta sobre os buracos. No meio de dois filmes, encontra uma brecha para um terceiro. Um labirinto de variações, ruídos, repetições, desencontros. Elipses sobre elipses, como Valderrama na intermediária contra os alemães.


Arranca pela esquerda da esquerda um gênio (ainda desconhecido) do cinema mundial. Nicolás Guillén Landrián recebe uma encomenda do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficas para realizar um filme educativo sobre café. Mata no peito, passa por três ou quatro marcadores – as pressões governamentais, o documentário como forma, o racismo estrutural… – e entrega um golaço, digno de um barrilete cósmico: um turbilhão de vaivéns, um musical sobre os limites da linguagem, uma comédia experimental. 


Sessão programada por Diego Cepeda (República Dominicana)

Sábado, 9 de agosto, 18h

Nota curatorial:
Esta sessão propõe dois olhares sobre os limites de dois territórios em transe. Por um lado, o território do cinema, questionando a função da câmera como instrumento de conhecimento, e por outro, o território imaginado e sincrético de uma ilha partilhada por dois países: a República Dominicana e o Haiti. Inspirado pelo traço inacabado deixado por Maya Deren no Caribe, Larry Gottheim, cineasta experimental americano e professor de cinema, fez três viagens à República Dominicana em 1989. Com a sua câmara, não procurará explicar ou ensinar nada, como ele próprio afirmou, Machete Gillette… Mama é um antidocumentário. Em vez disso, deixar-se-á afetar musicalmente, de forma vertiginosa e fragmentada, pelos ritmos internos da vida quotidiana nos bateyes, pelos rituais alegres dos gagá e pelos exercícios históricos e violentos de tradução que perpetuaram a exploração dos plantadores de cana haitianos como uma das formas de escravização moderna em território dominicano. Trinta e dois anos depois, em Pacaman (2021), a cineasta dominicana Dalissa Montes de Oca aborda “La Duarte”, uma rua comercial caótica e animada de Santo Domingo. Como ela descreve: “La Duarte tornou-se um organismo autónomo, separado da cidade, com a sua própria biosfera”. Um filme que, ao explorar também um território dentro de outro, propõe um caminho para a abstração, desvanecendo, curiosamente, qualquer demarcação possível.

Um filme fronteiriço. Para além de Maya Deren no Haiti, Larry Gottheim foi outro dos grandes cineastas experimentais que percorreu o Caribe através de sua prática. O filme é composto por rápidas e disjuntivas imagens e por sons de aspectos da vida na República Dominicana – segundo Gottheim, é sobre a própria representação, dentro do ritual, dentro do cinema, dentro da história, dentro da narrativa. O fogo, os bateyes, a indústria açucareira, os elementos básicos da vida quotidiana (cozinhar, lavar, sonhar, dançar…) são motivos tanto do filme como dos rituais cotidianos. Realizado em colaboração com os dominicanos Oriol Torres, Victor Camilo e Bernardo Roman.


Quais são os limites de uma câmera? Em Pacaman (2021), Dalissa Montes de Oca aborda “La Duarte”, uma rua comercial caótica e animada de Santo Domingo. Como ela a descreve: “La Duarte tornou-se um organismo autónomo, separado da cidade, com a sua própria biosfera”. Todo o filme nos conduz a um caminho de abstração. Quais são, então, os limites de uma câmera? Parece que Pacaman problematiza a função da câmera como instrumento de conhecimento. No entanto, oferece-nos outra coisa: o cinema como prática especulativa. A câmera-interrogante de Pacaman convida-nos assim a não saber, mas a reconhecer, com curiosidade, a diferença.


Anúncio dos vencedores das mostras competitivas e sessão programada por Carla Italiano

Domingo, 10 de agosto, 19h

Nota curatorial:
Quantas brechas carrega um corpo-território? E quantos tempos habitam a superfície de uma imagem em ebulição? A sessão exibe pela primeira vez na cidade o premiado longa “¡Aoquic iez in Mexico! ¡Ya México no existirá más!” (2024), da realizadora Annalisa D. Quagliata Blanco, em sua montagem vertiginosa que mergulha nas heranças e contradições da sociedade mexicana. A partir de um sentido de recusa das narrativas coloniais que se pretendem linearmente hegemônicas, outro filme é convocado para este diálogo intempestivo: o curta em vídeo “Corazón Sangrante” (1993), da também artista mexicana Ximena Cuevas, com seu alargamento debochado dos laços entre afeto e imaginário coletivo.

Astrid Hadad, vestida com trajes tradicionais e adereços religiosos, interpreta uma balada romântica chilena diante de paisagens fantásticas. Suas posturas hiperbólicas traduzem a história da desilusão amorosa de uma mulher, nesse vídeo que explora o tom lúdico, a sátira e o melodrama sob um cenário pictórico latino-americano.


Um olhar frenético percorre a turbulenta Cidade do México, essa metrópole colossal sustentada pelo mito da miscigenação e outras violências coloniais. Passado e presente tecem uma enxurrada de imagens; memórias fragmentadas desse território. Divindades ancestrais são encarnadas, sonhos se desdobram entre a intimidade, a cumplicidade e a revolta. Um filme errático que nos convida a reimaginar a relação complexa com a ideia de “mexicanidade”.


Mostra Visões

Sexta-feira, 8 de agosto, 19h45

A obra de Elena Duque é animada por duas paixões simultâneas e aparentemente inconciliáveis: a paisagem, sobretudo em suas versões aquáticas; e o retrato íntimo, que frequentemente se transmuta em autorretrato. Colecionadora de memórias, próprias e alheias, suas obras plasmam, com forte traço artesanal, um mundo de pequenos objetos que ganham vida em animações experimentais sempre realizadas com técnicas analógicas. Numa direção complementar, seu mundo se abre para um inventário de paisagens marítimas e fluviais, entre a Venezuela e a Espanha, que alimentam um repertório interessado em jogos óticos e sonoros, com marcado teor lúdico. Todo um universo de canções populares inunda esse cinema encharcado, romântico e inquieto. Em sua versão  performática, uma irônica visita aos manuais de iniciação à pintura nos convida a um diálogo humorístico entre as artes plásticas e o cinema.

“O nosso amor é azul, como o mar, azul” (Christian Castro) 

Filme sobre o mar salgado (galego e especialmente da Corunha), com um pot-pourri de canções marítimas (das Astúrias) do Coro Bajamar de Luanco.


O inventário filmado de uma coleção privada. Pode ser visto como uma coleção de arte duvidosa, mas também como uma compilação no espírito da filatelia ou da arqueologia, ou uma série de objetos e documentos sob a forma de um mostruário de memórias. O catálogo emocional de uma vida transformada, por sua vez, num ítem colecionável.


Um filme de aproveitamento. Rolos de super 8mm próprios e alheios recolhidos ao longo dos anos e organizados de acordo com as suas tonalidades de cor e as peripécias biográficas próprias. O resultado de cortar e juntar pedaços de filme como uma ação calmante.


Mentem,  mentem,  seus olhinhos /  olham, olham, tão bonitos / e meu coração se faz em pedacinhos. (“Ojitos mentirosos”, Tropicalisimo Apache) 

O trompe l’oeil é um género de pintura que se baseia em “enganar o olhar” do observador. Eis uma amostra de pinturas trompe l’oeil de Madrid: as que inventam janelas e céus inexistentes nos muros da cidade, e aqueles que a câmera de cinema fabrica.


Portais segue o curso do rio Guadalete, em Cádis, Espanha, da serra até o  mar: um catálogo de paisagens que escondem outras paisagens, uma coleção de portais (e postais) interdimensionais que fusiona ação real e animação para criar uma fauna e uma flora impossíveis, uma outra história e geografia para um discreto curso d’água.


Aprenda a pintar em quatro lições simples: em “Para Sonia”, descubra a abstração geométrica e a cor de Sonia Delaunay; em “Natureza-morta”, domine o género de pintura mais versátil; em “Action-Painting”, siga os passos de Joan Mitchell (e não tanto de Pollock); em “Retrato sentado”, aprenda como pintar um retrato cubista finalmente ao seu alcance.


Sábado, 9 de agosto, 19h30

Nota curatorial de Victor Guimarães:
A obra de Helga Fanderl é uma das joias mais valiosas – e mais escondidas – do cinema contemporâneo. Com seu método peculiar e sua insistência em formas radicalmente artesanais de fazer filmes, a artista alemã vem criando, nas últimas décadas, uma coleção de poemas visuais que só acontecem em presença. Por onde passa, ela realiza breves filmes em Super 8mm, quase todos com a duração de apenas um rolo, sempre montados na câmera. Uma vez revelados, ela passa a colecioná-los e exibi-los em diversos espaços, tal como foram feitos, sem pós-produção. A partir de seu enorme acervo de centenas de obras, Fanderl prepara cada sessão com cuidado, decidindo quais filmes trazer na mala, a ordem da projeção e suas intervenções entre um rolo e outro. Em constante contato com as vibrações do mundo ao redor, a artista transfigura paisagens e cenas cotidianas em ritmos surpreendentes, cadências desconhecidas, cores vivas: vermelhos impossíveis, azuis que não há. A intensidade do mundo se redobra no ato de filmar e continua no espaço do cinema, com os projetores sempre instalados dentro da sala, em eventos únicos nos quais a presença das máquinas, do projecionista e da artista são parte essencial da experiência. Aos 78 anos, Helga Fanderl viaja pela primeira vez a um festival na América do Sul.

Todos os filmes foram realizados entre 1992 e 2024 e serão exibidos em Super 8mm na presença da artista.


Domingo, 10 de agosto, 16h30

Todos os filmes foram realizados entre 1992 e 2023 e serão exibidos em Super 8mm na presença da artista.


Domingo, 10 de agosto, 17h45

Nota curatorial de Victor Guimarães:
A pulsão inicial do trabalho de Moira Lacowicz consiste em reencontrar imagens perdidas, descartadas pela história, para submetê-las a processos de intervenção química. Documentários institucionais, registros caseiros, filmes pornográficos achados no caminhão de lixo: materiais de base para gestos de interferência que culminam em alteração plástica, e fazem da corrosão uma oportunidade para revelar as entranhas do visível e inventar novas figuras. Mais recentemente, a artista vem explorando outros territórios, como a produção artesanal de imagens analógicas, os fitogramas e a invenção de métodos próprios de intervenção e de exibição. Em toda essa variedade de gestos, pulsa um desejo de atrito: no cinema de Lacowicz, uma imagem é sempre pelo menos duas, que se alteram pelo contraste, se devoram ou entram em guerra. Seja nos químicos que usa para corroer materiais encontrados, seja nos prismas e outros objetos óticos utilizados nas lentes de exibição, seja nas projeções bicanal, com manipulação de dois projetores em sincronia imperfeita, a artista busca sempre uma fricção entre imagens, que desestabiliza nossas maneiras de ver. Um cinema malogrado e luminoso, enfermiço e vivo.

“A memória presente na imagem como signo da ausência”. Let’s take a Walk é um filme realizado com material familiar encontrado no Brasil, Argentina e Uruguai com intervenções de diversos processos químicos.


Em 2015, 4 rolos de 8mm com filmes pornográficos hardcore dos anos 60 são encontrados em um caminhão basculante em Buenos Aires. Em 2019, intervimos com ácido sulfúrico e soda cáustica. A emulsão se expande e se contrai com os corpos, fundindo-se até abstrair completamente. Um duelo entre a censura e o explícito.


Documentário sobre a história dos Jogos Olímpicos manipulado com químicos corrosivos. A emulsão, junto aos atletas que compõem a película, geram distintos resultados rítmicos.


Double Talk II é uma colagem audiovisual originalmente concebida em dois canais com projetores Super 8mm. Pequenas sequências de filmes familiares são combinadas com documentários de valor histórico e institucional, propondo uma possível reflexão sobre a materialidade do suporte.


Material filmado durante o mês de julho de 2018 em Buenos Aires. O material registra diversas situações atravessadas pelo contexto social atual. Filmado em Super 8 e revelado artesanalmente pelos próprios cineastas.


Realizado em tomada única durante a oficina do Festival Inflamável. Inspirado na carta de tarot “A Estrela.” “Não tenho mais necessidade de procurar, não faço mais nenhuma imagem de mimmesma, estou no meu lugar. Aqui, e em toda parte. Voluntariamente conectada.”


Wild Flower é uma peça expandida em eterno processo, originalmente projetada em bicanal, onde o processo e conexão entre as imagens conduzem o filme. Partindo de fitogramas delicados, transita por negativos de flores, paisagens subjetivas de praia, pescadores em seu cotidiano culminando no pulsar visceral de um coração.


Concebido para dois projetores analógicos em sincronia imperfeita, Fanopeia ou a guerra entre imagens é uma peça audiovisual expandida onde imagens de arquivo colidem com abstrações criadas por técnicas manuais. A simultaneidade dos raios projetados produz um terceiro campo de tensão — uma imagem expandida, em conflito ou em fusão, que escapa à linearidade narrativa e se reconfigura a cada instante. Em preto e branco, o filme investiga o atrito entre diferentes regimes do visível: o registro e o gesto, o documento e o traço sensível. A trilha sonora, composta por Diana Rietveld com instrumentos analógicos e intervenções sonoras, acompanha e fragmenta o ritmo das projeções, propondo uma escuta que também se constrói no atrito entre o que se vê e o que escapa. Fanopeia se apresenta como uma zona de fricção entre memórias solidificadas e a força plástica do gesto presente.



Cinema 3/99:
Comer com os olhos

Sexta-feira, 8 de agosto, 19h45

Programa original do Centro de Cultura Contemporánea de Barcelona

Sessão infantil programada por Glória Vilches e Elena Duque, apresentada por Elena Duque.

O paraíso é tomar café da manhã no terraço. “Le Repas de Bébé” dos irmãos Lumière, com a diferença que este bebé de 2024 não só come, como também filma seus pais.


Esta animação em stop-motion, feita quase inteiramente com comida de verdade, conta a história de um cupcake obstinado que anseia por encontrar algo para além do seu mundo de arranha-céus de cubos de açúcar e amigos cobertos de glacê.


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Capricho frutado de animação precária, salada de frutas em movimento espasmódico, com uma aparição estelar de muppets comestíveis.


Limão, cranberry, maçã, banana, pepino, laranja, lima são uma seleção de Fruta Fruta.


12 Cafés da Manhã é sobre jogar com a comida em doze eventos de café da manhã.


Fay Ray, cachorro de William Wegman, interpreta o velho fazendeiro McFay nesse segmento da Rua Sésamo. O fazendeiro McFay têm seis limões e limas, e não importa como ele os posicione, sempre restam seis.


Uma laranja animada.


Tomato é o primeiro de uma série de filmes de tamanho reduzido e visualmente engraçados que reconsideram alguns dos alimentos mais humildes e omnipresentes nos nossos pratos – as formas como os definimos e consumimos, e também como esses alimentos podem vir a nos definir.


Cinco belas donzelas fazem um piquenique no telhado de um armazém na encantadora Long Island City, uma floresta de arranha-céus que brilha ao largo do rio. Mas quando um enxame de moscas interrompe o seu banquete de pretzels cobertos de chocolate e tortas de natas, as jovens senhoras ficam furiosas.